domingo, 16 de julho de 2017

JULHO #RRSP17 \\ "as intermitências da morte", José Saramago


Saramago

Pela primeira vez desde que o projeto começou, terminei uma releitura antes do mês acabar. Sei que muito em parte, isto se deve ao facto de estar de férias, contudo, a razão pela qual mergulhei de cabeça, corpo e alma a este livro tem ligação com o seu próprio escritor: José Saramago. Digam o que disserem, criem as confusões que acharem necessárias, mas nada me demove de acreditar que as histórias que este homem deixou na terra são de uma credibilidade imensa para o nosso espírito. São as palavras ricas, as expressões vincadas, a dedicação impressa em cada linha que nos envolve na narratva, que nos abala a mente, que nos torna em pessoas felizes e ainda mais inteligentes.

Façam os prantos que desejarem, mas Saramago é the best. Podem existir melhores escritores do que ele, talvez com a mesma qualidade, mas cada indivíduo é um indivíduo e a maneira como se nos servem vai depender daquilo que nos consideramos ser de verdade. Estava mais do que ansiosa para reler este livro e atender a detalhes que sei deixar ficar no passado, arrecadando ainda mais lições que sempre acreditei serem possíveis de adicionar aos meus saberes. as intermitências da morte é uma obra que visa a mostrar-nos as diversas reações que o ser humano concebe, de modo a determinarem os caminhos a tomar, segundo inúmeras situações. É uma valente crítica idealizada de maneira a nos presentar com uma alternativa à realidade já existente, um desabafo em relação às atitudes que mascaram uma intenção gananciosa, mas que são justificadas como algo de muito bom. 

Este livro é também uma amostra de como as relações às quais damos oportunidades nos podem modificar, permitindo-nos sentir coisas que nunca demos a oportunidade de existir, provando-nos que independentemente da pessoa que sejamos, as nossas convicções poderão ser aligeiradas para algo de muito mais valor. Se aconselho? Sem dúvida!

"E não nos admiremos se, no preciso instante em que estivéssemos a ler o nosso cadastro particular, nos aparecesse instantaneamente registado o choque da angústia que de súbito nos petrificou. A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste. Se é certo que não sorri, é só porque lhe faltam os lábios, e esta lição anatómica nos diz que, ao contrário do que os vivos julgam, o sorriso não é uma questão de dentes."
Já leram este livro? O que acharam?
Esta publicação insere-se no projeto do Re-Reading Season Project, em parceria com a Sofia. Para saberes o que ela anda a reler, clica no seu nome.

INFO. adicional: 1ª review do livro



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Queres tomar um café comigo? #3 - Vou-te contar uma história

Imagino-me rodeada por muitos mais livros do que aqueles que já me são atuais, enquanto cada um deles deita cá para fora o seu tão característico odor, despertando-me para mais um dia. Lá fora, a natureza maneja a sua orquestra, cada um dos seus elementos com a função de criar uma melodia, e a única coisa que nos separa é a janela, por onde corto a paisagem com o meu olhar míope, o rosto ensonado, o corpo mole e ainda assim revigorado.

Da porta entreaberta, espreita-me o Lúcifer, de olhos cativantes, pêlos brilhantes e orelhas arrebitadas, enquanto se vai aproximando de mim, aquela cauda excitada por mais um dia de brincadeiras e mimos. Ele salta para o meio dos meus lençóis brancos, protegidos por um edredão de temperatura média, cor de menta, e afago o seu pequeno corpo com as mãos um pouco dormentes, mas ainda assim predispostas a brincarem com o belo gato que tenho em casa. O Enzo espreita da varanda, provavelmente foi lá parar assim que cortou pela cozinha, aguardando que eu saia da cama, faça o meu chá e me prepare para o longo dia de afazeres. 

Sem esperar muito, lanço-me à rotina: escovo os dentes, lavo o rosto, matifico-o, prendo o cabelo, arrasto-me para a cozinha, aqueço a água para o chá, mexo os meus adorados ovos com salsichas, encolho-me na grande cadeira na qual decidi investir para mim, pego na leitura atual, e assim tomo o pequeno-almoço. Deixo-me estar assim, por longos minutos, à medida em que o sol espreita pelo cume das montanhas, chamando pela minha atenção, que se desvia, entretanto. Sei que já é tempo de me equipar, talvez correr um bocado, regressar ao meu leito e tomar um longo banho.

café

Sei que naquele dia receberei uma visita. Há muito que estávamos a combinar e não nos calhou melhor hipótese do que aquela. Elaboro uma longa ementa. Opto pelo mais saboroso e que sei que será do nosso agrado. Pego nas chaves do carro, despeço-me dos meus companheiros e faço-me à estrada. Aumento o som da rádio, cantarolo a música do momento e permito que a brisa matinal ocupe o seu derradeiro espaço no carro, enquanto me deixo amornar fisicamente. Não consigo evitar não mostrar um sorriso, embora breve, e logo chego ao supermercado. Muno-me do que necessito, pago as coisas, e faço-me novamente à estrada.

Preparo o almoço, abano as ancas ao som dos novos álbuns dos meus artistas favoritos, o Lúci e o Enzo juntam-se à festa e, quando dou por mim, a porta emana o batuque que exerceram sobre ela. Estranho a presença tão repentina, mas ainda assim percorro o corredor e a abro. Ali está o convidado, de sorriso no rosto, uma caixa com o nosso chá predileto e um conjunto de mimos para a hora do cinema. Suspiro de contentamento, abro uma frecha no caminho e deixo que me plantem um beijo no rosto. Dou um salto para a realidade e corro para a cozinha, ainda a tempo de deitar na panela os ingredientes que me faltam. De longe oiço uma gargalhada e o meu corpo estremece. Nunca me havia sentido tão feliz quanto agora, num momento tão simples, preenchido de piadas nossas e sabores nossos. E que mais poderia eu pedir, se é assim que me imagino no expoente do meu lar?

quarta-feira, 12 de julho de 2017

5 Vantagens das Caminhadas Matinais

Assim que entrei de férias, estabeleci a regra: a partir da segunda semana de descanso, eu passaria a acordar à mesma hora do que no período de aulas, a única diferença é que eu passaria a trabalhar o meu corpo por mim. Continua a ser difícil, não vou mentir a espalhar por aí de que tem sido fácil, no entanto, e há medida que o tempo vai passando, tem-se tornado benéfico fazer uso de uma atividade tão simples, contudo, bastante completa para os meus requisitos atuais. É verdade de que deveria investir em exercícios de força, tal como era hábito, mas estou numa de me deixar levar pelas diversas etapas que cada momento exige.

Vantagens

Como tal, e como não poderia deixar de partilhar convosco as coisas que tenho vindo a arrecadar destas caminhadas matinais, ao contrário do habitual, pois fazia-as durante a tarde - embora as vantagens sejam quase as mesmas, mas já perceberão as distinções -, aqui vos entrego as cinco principais.

1. Acordas cedo e despertas logo a seguir com a movimentação: E sim, quando eu digo que são matinais, refiro-me a um horário entre as 6h e as 7h. O despertador cantarola-me nos ouvidos, aproveito o facto de dormir com os estores abertos para dar uma vista de olhos à rua, deixou-me embebedar com as luzes do nascer do sol e salto da cama com a energia necessária para me vestir, preparar o pequeno-almoço, colocar a música e contabilizar os minutos que levo a dar a volta à cidade. Tento diversificar os roteiros, de modo a não me fartar da atividade, e tem sido extraordinário poder explorar a cidade enquanto ela acorda, e observar que não sou a única a fazer caminhadas, inspira-me a não desistir delas;

2. Ganhas energia para o resto do dia: Dito e feito. Mesmo naqueles dias em que necessito de fazer uma pequena sesta após o almoço, a verdade é que qualquer atividade física, seja ela correr, andar ou dançar, conferem-nos mais minutos de atividade para o restante dia. Tem a ver com a ciência da dopamina, serotonina, etc., ao mesmo tempo em que nos sentimos orgulhosos pelo nosso esforço, permitindo-nos sorrir sempre que temos a oportunidade;

3. Tens mais tempo para os teus afazeres diários: E isto está mais relacionado com o facto de acordarmos cedo. É nestes momentos em que nos podemos dar ao luxo de criar uma to do list gordinha, pois não teremos desculpas para não a cumprir, visto que temos em mãos mais tempo do que o suposto durante as férias grandes. A mim, tem-me sabido pela vida pincelar, no dia respetivo do calendário do bullet, os meus afazeres, e ainda ter a oportunidade de acrescentar ainda mais coisas! O verão não é sinónimo de dormir e acordar tarde!;

4. O teu humor, ao contrário do que se espera, melhora exponencialmente: Pegando no ponto 2, isto tem muito a ver com o facto de nos sentirmos recompensados pelas hormonas, assim como pelos resultados físicos com os quais nos deparamos semanas após semanas. Por muito impacientes que sejam, se continuarem a lutar pelo vosso objetivo, balanceando tudo com uma ótima alimentação, verão que as situações se tornam mais leves de se carregar!;

5. Por ficares cansada/o com a correria do dia, dormes cedo e bem mais relaxada/o: E estarás apto/a para acordares, no dia seguinte, com o corpo recarregado e adquirir mais conhecimentos acerca da tua pessoa!

Têm o hábito de fazer caminhadas? Quais os benefícios que encontram nelas?

terça-feira, 11 de julho de 2017

BOOK review \\ "O Livro do Hygge", Meik Wiking

Hygge

Há muito que não pegava num livro e o devorava em menos de 48h. Não sei se essa rapidez foi movida pela vontade e a curiosidade de o ler, ou se a sua construção física facilitou nesse aspeto, contudo, soube-me pela vida rematar algumas descobertas feitas de mim mesma com um livro que trata de pequenas coisas que podemos fazer para melhorarmos a nossa qualidade de vida, plantando a felicidade como consequência dos nossos atos. Já ouviram muito falar desta obra, aposto que sim, mas aqui estou apenas para corroborar com muitas outras boas opiniões, deixando as certezas em pratos limpos: este livro é uma mais-valia, acreditem.

Não o abordem na esperança de receberem as respostas para os vossos problemas. Talvez seja de mim e da minha situação espiritual, mas acredito que o modo de viver segundo o hygge tem de ser explorado com a delicadeza certa, a vontade balanceada e a cabeça no lugar. Por muito simples que as mensagens sejam, se vocês estiverem mal resolvidos, encararão as palavras de Meik Wiking como uma ofensa, uma brincadeira que ele decidiu iniciar com as cabeças das pessoas. Por serem ensinamentos simples e, no entanto, difíceis de implementar, é que devem ser levados a sério, quando a nossa mente está virada para tal. O hygge, segundo ele e os dinamarqueses em geral, são as coisas simples, o viver-se no momento, a partilha de emoções genuínas com os nossos. É o toque numa mesa de madeira antiga, o crepitar das chamas de uma lareira, o flamejar das velas, o cheiro do nosso chá predileto, a trama do nosso livro favorito. É sabermos valorizar, ainda mais, os aspetos mais pacatos do nosso quotidiano e não nos relacionarmos com o materialismo e o consumismo.

Hygge


"O hygge é fazer uma pausa na vida de um adulto empreendedor e stressado. Descontraia. Um bocadinho que seja. O hygge é sentir felicidade com prazeres simples e saber que vai correr tudo bem."
Ao longo da leitura, descobri que me faço acompanhar de mais momentos hygge do que esperado, apenas não tinha como traduzi-los em palavras. Muito me esforço para tentar relatar aquilo que me faz sentir aconchegada após um café com os amigos, uma almoçarada, uma leitura estonteante, e agora que fui presenteada com a expressão correta, um tanto ou quanto paradoxal na hora de se ler, ser-me-á muito mais fácil lutar por uma vida pautada de uns quantos hyggestund (=momentos hygge).

Este livro é belo pelas suas palavras, verdadeiro nas suas mensagens e estratégico pela maneira como nos apresentam registos fotográficos que nos acaloram o coração e nos acalmam a mente - até o odor destas 288 páginas é saudável para o nosso espírito. Pode ser de leitura rápida por consistir num núcleo mais técnico, contudo, é como que um manual de instruções para quando nos sentirmos perdidos dentro de nós, com falta de imaginação, ou mesmo quando simplesmente queremos recordar alguns ensinamentos. Valeu a pena ter aguardado pelo momento adequado e explorá-lo tal como ele merece!

Já leram esta delícia de livro? O que acharam?

domingo, 9 de julho de 2017

SÉRIES \\ "Lucifer" (2015)

E pensar que levei meses para assistir a esta série. Não sei porque hesitei tanto ao início, mesmo depois de ter sido elucidada acerca da sua temática, no entanto, valeu mesmo muito a pena esperar que as férias chegassem e deixar que uma semana da minha vida fosse dedicada às duas temporadas existentes da mesma. Evito a qualquer custo trazer-vos a temática da religião para o blogue, não porque não tenha o que dizer, mas sim porque talvez aquilo que eu tenha a dizer não seja bem aceite por muitas pessoas. Contudo, quando bem empregada e quando sei que não me ofenderá, encaro a fé e a crença como coisas bonitas, que unem pessoas e que as levam a praticar o bem, independentemente das diferenças que as separem de mim.

Lucifer

E tudo isto porquê? Porque a série da qual vos venho falar aborda a temática da religião. Não de forma descritiva, abusiva, ofensiva, mas sim da perspetiva do Diabo... Que decidiu tirar férias do Inferno... Para residir em Los Angeles. Sim, exatamente o que terminaram de ler. E como é que isso vos poderá ajudar na vida? Mesmo que sejam feitas piadas, mesmo que existam personagens ateias, mesmo que o Diabo seja a personagem principal, não há como não destacar o encanto que existe por detrás das mensagens que nos passam. E se o Diabo não for assim tão mau, e apenas o "é" porque foi essa a função que lhe concederam? E se, afinal, a maldade humana seja uma coisa nossa, que nós decidimos alimentar em nome de algo ou alguém que nada tem a ver, apenas para nos justificarmos de que o Diabo é o culpado de tudo? E se o Diabo for bem mais humano do que nós julgamos pensar?

"Lucifer" é uma série complexa, que mesmo trazendo informações bíblicas ao baile, não o faz com o intuito de suscitar controvérsias, muito pelo contrário. Julgo que se observarmos bem, esta produção foca-se mais em trazer-nos os conflitos que possivelmente possam existir na família celestial, equiparando-a com o resto da humanidade. Levo-a como uma série metafórica, na medida em que nos mostra que por muito diferente que a nossa natureza seja, por muito que os nossos verdadeiros amigos a estranhem, se eles nos tiverem mesmo em conta, eles aceitar-nos-ão tal como somos, com os nossos defeitos. Porque não há razão para temermos aqueles que nos querem bem, mesmo quando somos o Diabo. Talvez tenha levado esta série muito a peito, mas eu sou da opinião de que sim, se as pessoas são más, é porque elas fazem por isso, muitas das vezes porque querem, e de quando em vez porque a vida as moldou assim. Para mim, não há motivos para culpabilizarmos uma entidade pelos nossos pecados, apenas porque foi coibido a tal. O Lucifer é uma personagem egoísta, egocêntrica, charmosa, que gosta de punir os maus pelos seus pecados, no entanto, é uma entidade que acaba por se apaixonar, que se torna vulnerável, e que mesmo não querendo abraçar essa condição dos mortais, faz por entendê-los... À sua maneira, mas mesmo assim.

O que mais apreciei em toda esta produção é o facto de terem tido o cuidado de se preocupar com as razões pelas quais o Lucifer é assim, uma entidade ressentida, fechada, dono de si mesmo; concedendo-lhe a oportunidade de se justificar, não se focando apenas na imagem de Deus. Temos a oportunidade de conhecer alguns dos seus irmãos, a sua pequena demónia, e tantas outras individualidades que nos seduzem a cada episódio, tornando-nos em verdadeiros viciados na série, ao mesmo tempo em que podemos assistir de perto os conflitos entre a religião e a ciência - acreditem que em todo este tempo de existência, nunca me tinha passado pela cabeça uma maneira tão genial de desenvolver esta relação.

Aconselho que dêem uma vista de olhos à série. Mas uma vista bem aberta e atenta. Não há razões para se retraírem, não há razões para se isolarem dela. Se preferirem encarar "Lucifer" como uma piada, estão à vontade. No entanto, se quiserem ser como eu sou com quase tudo, e acharem que vale a pena explorar todo o pano de fundo, colocando hipóteses na mesa e estudando-as como elas merecem, então bem-vindos ao clube!

Já viram esta série? O que têm a dizer?