13 de julho de 2017

Queres tomar um café comigo? #3 - Vou-te contar uma história

Imagino-me rodeada por muitos mais livros do que aqueles que já me são atuais, enquanto cada um deles deita cá para fora o seu tão característico odor, despertando-me para mais um dia. Lá fora, a natureza maneja a sua orquestra, cada um dos seus elementos com a função de criar uma melodia, e a única coisa que nos separa é a janela, por onde corto a paisagem com o meu olhar míope, o rosto ensonado, o corpo mole e ainda assim revigorado.

Da porta entreaberta, espreita-me o Lúcifer, de olhos cativantes, pêlos brilhantes e orelhas arrebitadas, enquanto se vai aproximando de mim, aquela cauda excitada por mais um dia de brincadeiras e mimos. Ele salta para o meio dos meus lençóis brancos, protegidos por um edredão de temperatura média, cor de menta, e afago o seu pequeno corpo com as mãos um pouco dormentes, mas ainda assim predispostas a brincarem com o belo gato que tenho em casa. O Enzo espreita da varanda, provavelmente foi lá parar assim que cortou pela cozinha, aguardando que eu saia da cama, faça o meu chá e me prepare para o longo dia de afazeres. 

Sem esperar muito, lanço-me à rotina: escovo os dentes, lavo o rosto, matifico-o, prendo o cabelo, arrasto-me para a cozinha, aqueço a água para o chá, mexo os meus adorados ovos com salsichas, encolho-me na grande cadeira na qual decidi investir para mim, pego na leitura atual, e assim tomo o pequeno-almoço. Deixo-me estar assim, por longos minutos, à medida em que o sol espreita pelo cume das montanhas, chamando pela minha atenção, que se desvia, entretanto. Sei que já é tempo de me equipar, talvez correr um bocado, regressar ao meu leito e tomar um longo banho.

café

Sei que naquele dia receberei uma visita. Há muito que estávamos a combinar e não nos calhou melhor hipótese do que aquela. Elaboro uma longa ementa. Opto pelo mais saboroso e que sei que será do nosso agrado. Pego nas chaves do carro, despeço-me dos meus companheiros e faço-me à estrada. Aumento o som da rádio, cantarolo a música do momento e permito que a brisa matinal ocupe o seu derradeiro espaço no carro, enquanto me deixo amornar fisicamente. Não consigo evitar não mostrar um sorriso, embora breve, e logo chego ao supermercado. Muno-me do que necessito, pago as coisas, e faço-me novamente à estrada.

Preparo o almoço, abano as ancas ao som dos novos álbuns dos meus artistas favoritos, o Lúci e o Enzo juntam-se à festa e, quando dou por mim, a porta emana o batuque que exerceram sobre ela. Estranho a presença tão repentina, mas ainda assim percorro o corredor e a abro. Ali está o convidado, de sorriso no rosto, uma caixa com o nosso chá predileto e um conjunto de mimos para a hora do cinema. Suspiro de contentamento, abro uma frecha no caminho e deixo que me plantem um beijo no rosto. Dou um salto para a realidade e corro para a cozinha, ainda a tempo de deitar na panela os ingredientes que me faltam. De longe oiço uma gargalhada e o meu corpo estremece. Nunca me havia sentido tão feliz quanto agora, num momento tão simples, preenchido de piadas nossas e sabores nossos. E que mais poderia eu pedir, se é assim que me imagino no expoente do meu lar?

2 comentários:

  1. Eu não digo que tens talento, rapariga? Não só fazes excelentes designs ( obrigada pelo meu <3), como escreves maravilhosamente bem. E estás também a evoluir imenso no campo da escrita. Este texto bem que poderia vir nas páginas de um livro, que eu não daria por ela, e pensaria que era de alguma autora best-seller. A escolha das palavras fez-me mesmo imaginar tudo o que descreveste :).
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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    1. Folgo em saber que encaras o meu tipo de escrita como um elemento já bastante profissional, tendo em conta a comparação que fazes! Muito obrigada, de coração!
      Beijinhos!

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